Papo Rápido sobre Literatura, Cultura e temas da atualidade
- Ronaldo Anunciação
- 29 de jan. de 2024
- 6 min de leitura
Professor Leonardo Campos destaca a importância de projetos inovadores para enfrentar desafios no ensino de Literatura, incentivando a leitura por meio de adaptação de textos e comparação entre clássicos e temas contemporâneos

Professor Leonardo Campos, quais são os principais desafios para o profissional de Literatura e Linguagens nos ambientes de aprendizagem da atualidade?
O incentivo ao processo de leitura não é um problema atual. Na minha época de estudante, por exemplo, sempre gostei de ler, mas os professores utilizavam filmes ou resumos como recursos para que os estudantes se empolgassem com a leitura. Quase nunca funcionava, pois muitas estratégias focavam apenas em exibir algo e depois fazer alguns comentários, como se isso substituísse a leitura. Hoje, temos mais desafios. É uma era midiática, mergulhada na tecnologia e na virtualidade, há uma grande parcela de jovens que sequer conseguem ler as legendas das postagens das redes sociais que acompanha, quanto mais sentar com um romance clássico ou uma publicação contemporânea que vá além da quantidade de texto de um conto ou uma crônica. Não há fórmula mágica, sempre reforço isso com os colegas. O ideal é identificar contextos e trabalhar na aplicabilidade da leitura. Costumo inserir a leitura com atividades de transformação em projetos problematizadores. Adaptar o texto para uma peça teatral ou curta-metragem, criar capas para histórias já consolidadas e com várias edições, reimaginar a história, associando com temas da atualidade. Funciona muito bem em diversas ocasiões, vai depender bastante também da criatividade do professor e do apoio que recebe na instituição onde atua.
Nesta proposta, você traz uma perspectiva comparativa entre clássicos da literatura de épocas distintas, relacionando com a contemporaneidade. Comenta o projeto para os nossos leitores?
A resposta vai ao encontro do que mencionei anteriormente. Não dá mais para o professor esquematizar uma aula rígida, com slides contendo dados do autor, resumo do livro, características de personagens e elementos históricos somente. É preciso uma aplicabilidade mais motivadora. Faço isso constantemente com meus estudantes. Mesmo não sendo um ato heroico, algo que requer fórmula mágica, é preciso se esforçar para ser criativo. Todos saem ganhando, afinal, não há nada pior para um professor que sair da sala de aula com a sensação de não ter conseguido atingir nenhum de seus objetivos descritos no planejamento. Uma das estratégias em literatura, que tem dado muito certo, é a perspectiva comparada. Neste evento, por exemplo, trouxe uma experiência com duas publicações: O Cortiço e Suor, de Aluísio de Azevedo e Jorge Amado, respectivamente, autores de épocas distintas, mas com uma estrutura literária muito parecida em seus enredos, com histórias e personagens a vivenciar situações em constante diálogo não apenas com celeumas sociais da atualidade, mas também com outras áreas do conhecimento, num processo que permite aos estudantes envolvidos um mergulho intelectual mais intenso, indo da literatura e da cultura para outras reflexões tangenciais.

Primeiro, vamos versar sobre O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, constantemente nos vestibulares e demais processos seletivos e avaliativos.
É um livro do século XIX, época de grandes transformações. Quando lançado, em 1890, o Brasil passava por reconfigurações na ordem social, tal como várias nações ao redor do planeta. A formação de novos mercados, o trabalho assalariado, o desenvolvimento dos setores secundários e terciários e a definição de novas categorias sociais demarcam os principais acontecimentos do período. É possível perceber esse panorama ao passo que as histórias e personagens se desenvolvem diante do leitor. Dividida em três partes, a obra consta de 23 capítulos. Especialistas dizem que a inspiração para o ambiente descrito no romance é o cortiço Cabeça de Porco, local demolido em 1893, citado, inclusive, em determinado ponto da história. Estima-se que cerca de quatro mil pessoas viveram no espaço conhecido por suas construções precárias, formadas por vários quartos pequenos e sufocantes, sem cozinha, com banheiros e tanques coletivos. A chegada de imigrantes, a presença de escravos, as descobertas na área científica, no campo da Química e da Biologia, inclusive, constam no desenvolvimento das histórias de cada personagem do romance. Por meio de um narrador onisciente, o autor julga os personagens a todo tempo, torna-os “bestas” sociais que segundo descrições, sofrem influências do meio, até mesmo do sol, responsável por manter a temperatura num grau que mexe com os comportamentos. É uma ótima opção para leitura e debate com questões brasileiras contemporâneas, numa relação com outras áreas do conhecimento. Em um dos momentos, relacionamos os cortiços com as favelas da atualidade, num processo de percepção e análise que permite ao professor empreender muitas discussões em sala de aula.
E quais as conexões realizadas com Suor, um dos primeiros livros publicados por Jorge Amado?
Como descrevo numa crítica sobre o livro, em Suor, publicado em 1934, o baiano ainda em desenvolvimento de um estilo nos entrega uma história impactante, mesmo que ainda imatura quando comparada ao processo de estruturação literário que envolve tempo, espaço e personagens. No romance, não temos uma história única, mas várias narrativas curtas de um panorâmico cenário, o prédio 68, lugar por onde as múltiplas existências se cruzam, todas elas, a compartilhar do mesmo ocaso social que ainda demonstra a atualidade do que contemplamos em cada uma das páginas do livro. Situado na Ladeira do Pelourinho, o prédio em questão é um verdadeiro enxame: têm em média 600 pessoas, divididas entre 116 quartos, um caldeirão cultural com muitos sonhos, batalhas envolvendo pessoas em situação de miséria absoluta. Nesta época, Jorge Amado morou num pequeno cômodo, situado em um dos sobrados do Pelourinho, lugar que lhe serviu de inspiração para o desenvolvimento desta que é uma de suas mais angustiantes histórias acopladas nesta que é considerada a primeira fase de sua panorâmica obra, a era do romance proletário. A convivência com os tipos sociais e as situações diversas o inspirou a compor a tessitura do livro, um relato sobre indivíduos acometidos pela lógica do lucro de um sistema capitalista que oprime e subjuga, numa demonstração do quanto os personagens batalham pela sobrevivência no prédio 68, local que serve de cenário para uma história sobre conscientização política numa realidade de salários miseráveis, habitações em condições insalubres e alimentação parca. Publicado na época que chamamos de Modernismo, o livro permite associações com os elementos de O Cortiço, do século anterior, além de permitir ilações com questões sociais brasileiras da contemporaneidade.

Interessante observar as possibilidades de se trabalhar com eixos interdisciplinares: Biologia, Saúde, História, Geografia, Projeto de Vida, dentre tantos outros, correto?
É uma das assertivas alternativas para aqueles que desejam estabelecer a leitura em sala de aula com maior eficiência. Não há fórmula mágica, sabe? Para alguns estudantes pode funcionar bem, para outros não tanto, mas no processo o importante é o empirismo, a testagem, entender aquilo que cabe dentro do respectivo contexto. Versar sobre O Cortiço e Suor, além de permitir a análise dos personagens, enredo, contexto histórico, estética literária, dentre outros elementos específico de linguagens, também permite ao docente discutir temas da atualidade, como a transformação dos cortiços e seus desdobramentos nas favelas (Geografia), as questões de saúde, em especial, na era da pandemia recente que vivenciamos, haja vista as condições insalubres destes espaços (Biologia), os habitantes destes lugares, muitos deles, escravos que eram recém-libertos e sem base financeira e social para manutenção básica da vida (História). Há muitos caminhos com a literatura, não dá para o professor se manter apenas na esquematização de escolas literárias, resumos, questões sem teor problematizador nas avaliações. As aulas ficam mais dinâmicas e todos ganham no processo, desde os estudantes aos professores, menos entediados com a recepção geralmente morna dos jovens diante da leitura.
Para encerrarmos o nosso Papo Rápido: como você desenvolve a sequência didática com os dois livros, relacionando-os com temas da atualidade?
Sabemos que a leitura no âmbito da sala de aula é um grande desafio, então, burocraticamente, nós professores precisamos deixar ambos os livros como sugestão para os estudantes. São recursos que serão inseridos no esquema formal de qualquer instituição, as avaliações, a que chamamos também de “provas”. Mas, para um trabalho melhor, o docente pode pegar uma sequência de aulas da unidade e trabalhar os dois livros, associando com outros componentes curriculares, tais como Geografia, História, Produção Textual, dentre outros. Além de criar questões discursivas mais criativas para os estudantes responderem, com situações desafiadoras para reflexão e, consequentemente, espelhamento do exercício cidadão por meio de hipóteses, há também a possibilidade de se criar podcast sobre atualidades, para falar de urbanização, moradia, projetos governamentais e ações da sociedade civil. Os estudantes podem criar um manifesto para desenvolver propostas de intervenção social. São múltiplas as possibilidades e, quando trabalho com o processo comparativo entre ambos os livros, costumo aderir aos formatos aqui mencionados. É uma maneira de sair da passividade, das respostas esquemáticas em provas e colocar o estudante como protagonista de seu processo de aprendizagem.
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