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Como trabalhar Meio Ambiente nas Aulas de Linguagens?

Na entrevista de hoje, o professor e crítico de cinema Leonardo Campos reflete sobre o tema Meio Ambiente e Sustentabilidade nas aulas de Língua e Linguagens


Professor Leonardo Campos: a sua área de atuação é Letras. Você trabalha com produção textual, interpretação, análise de obras literárias. Como as questões sobre Meio Ambiente se inserem neste contexto?

Os temas de ecologia fazem parte dos meus interesses desde a infância. Ficava apaixonado pelos livros de ciências e suas discussões e ilustrações sobre cadeia alimentar, vida dos animais, etc. Lia e fazia as atividades sem qualquer sinalização dos professores. Era diletantismo mesmo. Quando amadureci na sala de aula, comecei a ir além das propostas simplórias de ensino e levei a interdisciplinaridade com bastante seriedade. Não é preciso ser professor de Biologia para trabalhar o tema, tampouco levar este tópico temático apenas nos projetos de Meio ambiente de alguma instituição. O tema e seus desdobramentos devem estar nas questões de interpretação, na análise de uma charge com alguma letra de música ou poema, numa atividade com questões discursivas, ou então, numa boa proposta de redação.

Então o que está nos dizendo é que a sua perspectiva é sempre interdisciplinar?

O professor nunca deixa de estudar. Aqueles que se acomodam continuam dando aulas chatas, desinteressantes, não apenas para os estudantes, mas para eles mesmos, indivíduos que reclamam constantemente sobre o sistema, mas sequer fazem algo para tentar mudar a sua própria realidade. Pesquisar é algo que deveria ser inerente aos docentes de todas as áreas. Investigar, descobrir coisas novas, reavaliar métodos, dentre outras ações: são posturas oriundas de quem faz pesquisa constante, mantendo-se sempre atualizado.

A experiência com documentários ecológicos e análise de vocábulos e discursos é fascinante.

Eu sou realmente fascinado pelo tema. Gosto de esgotar, ou me iludir com esta proposta, pois sabemos que não conseguimos nunca exaurir a questão do conhecimento. Mas sou metódico. Antes da pandemia e durante o período de isolamento social, me dediquei aos documentários ecológicos. Era um reino animal por semana: felinos, serpentes, ursos, tubarões. Assistia-os em sequência e analisava comparativamente as suas estruturas, em especial, os roteiros, pois geralmente os narradores humanizam os animais, inserindo racionalidade, violência, como se as criaturas representadas fossem máquinas de matar. É um discurso sensacionalista que gera um paradoxo nos documentários ecológicos, tema para uma boa aula de língua portuguesa, bem como análise do discurso jornalístico.

Além desta proposta com vida animal, em especial, felinos, répteis e serpentes, você comentou sobre um projeto envolvendo tubarões.

Acho os tubarões fascinantes e tenho até uma espécie deles tatuado em meu braço. Mas eu não podia levar o assunto de qualquer jeito para a sala de aula. A experiência, então, partiu da literatura para o Ensino Médio: refletir sobre o romance Tubarão, de Peter Benchley, bem como a sua tradução para o cinema em 1975, com o filme homônimo dirigido por Steven Spielberg. Deste ponto inicial comecei uma sequência didática que deu muito certo. Partimos para a análise de Moby Dick, de Herman Melville, e O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Falamos da relação do humano com as forças da natureza e passeamos pelo mito de Jonas, da Bíblia Sagrada, bem como Pinóquio e a baleia, dentre outros temas. Mais adiante, trabalhamos com os documentários sensacionalistas sobre tubarões e seus discursos, além do elucidativo Mitos e Verdades Sobre os Ataques de Tubarões no Recife, do jornalista e editor Arnaud Mattoso. Do Ensino Médio, o tema ganhou projeção em componentes curriculares do Ensino Superior, em especial, dos cursos de Cinema e Jornalismo, áreas em que atuo como docente desde 2015 na UNIFTC Salvador.

O que mais este projeto com os tubarões contemplou?

Análise de reportagens em revistas impressas mais antigas. Os estudantes tinham que comparar o discurso dos jornalistas e as imagens dos textos para fazer análise das publicações. Era algo que segui os caminhos pavimentados pelo que foi feito com os documentários ecológicos. Em linhas gerais, analisamos a importância destes animais para o ecossistema, algo que parece não ser relevante para as preocupações do nosso cotidiano, afinal, não somos oceanógrafos, mas que na verdade está mais próximo do que imaginamos. Consegui convencer alguns a não comer mais moqueca de cação. Seria um resultado positivo? (risos).

Além da produção textual, a análise de charges e infográficos é uma das estratégias mais presentes em suas aulas.

Essenciais. As charges possuem conteúdo textual, contextual e semiótico, assim como os infográficos, conteúdos que permitem aos nossos estudantes aguçar o senso crítico e desenvolver habilidades interpretativas. É preciso, por sua vez, associar com textos norteadores, documentários, filmes, poemas, músicas, para que o uso destes recursos não fique apenas na ineficiente discussão sobre “o que você entendeu/achou”, sabe?

Professor Leonardo, em sua exposição, afirmou que evita utilizar questões prontas de bancos de dados. Quais são as suas estratégias para a elaboração de questões objetivas e discursivas?

Treinar a elaboração de questões me permitiu ter um acervo enorme de conteúdo para trabalhar em sala de aula presencial ou remota. É um trabalho de formiguinha. Assisto ao filme ou documentário, faço a minha crítica, elaboro duas questões e pronto: tenho material para aula onde me sinto seguro com o desdobramento da dinâmica de aprendizagem. Para boas questões, é preciso que o autor observe o enunciado, evite perguntas do tipo “o que é, o que é”, além da clareza na resposta, algo que precisa de fato estar na própria questão, a ser interpretada. Elaborar questões é algo complexo e pelas avaliações que tenho acompanhado, muita gente não sabe consolidar os conhecimentos de seus estudantes, pois as questões são elaboradas sem os cuidados mencionados.

Todos os tópicos apresentados são teoricamente formidáveis, mas na prática, acredita que atividades do tipo realmente atinjam os estudantes?

Sim, talvez não consigamos atender todo mundo, promover a mudança geral, mas é possível mexer com a conscientização de um grupo e do resto a vida cuida de direcionar. Encontro estudantes de quase uma década sem estar comigo em sala de aula que ainda se lembram de determinados debates e comentam as suas impressões e ações sobre determinados temas.

O que o professor precisa pensar enquanto organizador de uma sequência didática envolvendo Meio Ambiente na sala de aula?

Na pertinência do debate, para evitar cumprir apenas a burocracia exigida pela instituição na qual se encontra vinculada. Sequência didática requer evolução de um ponto inicial mais simples para uma jornada onde os conteúdos se tornem mais complexos e demonstre que há uma travessia entre os temas trabalhados. Organização e planejamento assertivo são fundamentais.

Recentemente, mais um episódio da franquia Jurassic World foi lançado. Este seria um filme, por exemplo, assertivo para trabalhar em sala de aula?

Apesar de não ter gostado da narrativa enquanto entretenimento, haja vista algumas falhas em meu ponto de vista enquanto crítico de cinema, os filmes do universo em questão ofertam discussões sobre os impactos do capitalismo numa sociedade que não reflete os limites da ciência. Este último, então, reforça o quão a relação da humanidade com a indústria genética pode ser favorável para uma série de pontos da nossa existência, mas também demonstra o quão o ser humano comprova, a cada situação do tipo, a nossa ética sem eficiência e a falta de habilidade em lidar com o poder advindo de algo tão grandioso, isto é, a retomada dos dinossauros, criaturas que até determinando momento, eram visões imaginadas diante das ossadas encontradas pelos paleontólogos.

No caso dos filmes que estão na perspectiva hollywoodiana: funcionam também para debates e atividades de conscientização em sala de aula?

Tal como a menção ao universo dos dinossauros, qualquer produção pode gerar um debate, basta a mediação coesa e coerente do professor responsável. Filmes como Inferno de Dante e Volcano: A Fúria, por exemplo, funcionam como diversão passageira, mas também colocam em cena elementos básicos da dramaturgia que refletem a ação da humanidade diante de situações catastróficas. O mundo se acabando e um grupo pensando em lucro, bens materiais, etc. São clichês que existem nestas estruturas narrativas por que de fato funcionam, tendo o professor como mediador das reflexões, pode se transformar em algo maior que o próprio filme exibido.

Para terminarmos e motivarmos os nossos leitores, conta sobre alguma experiência recente com Meio Ambiente nas aulas de Literatura, Língua e Linguagens.

Uma atividade envolvendo o documentário Seremos História, algumas charges e a clássica pintura de Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas. Artes, Literatura, Biologia, Geografia e História em simbiose numa aula do itinerário Projeto de Vida, do Ensino Médio, realizada com os estudantes do 1º ano da Escola Marissol e do Colégio Augusto Comte, da rede particular de Salvador. Foi a experiência mais recente, rendeu discussões e apresentações incríveis, bem como mexeu de alguma maneira com boa parte dos envolvidos.

Entrevista realizada pelo estudante de Jornalismo Ronaldo Anunciação, parte integrante do livro Meio Ambiente e Educação: Narrativas Cinematográficas (2022), lançado pela Vedas Edições.


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